Resposta curta: pé diabético é o conjunto de lesões do pé que aparecem em quem tem a diabetes, por perda de sensibilidade nos nervos, má circulação ou ambas. É a causa de 70% de todas as amputações não traumáticas em Portugal — e é isso que justifica existir uma norma da Direção-Geral da Saúde só para este assunto. A vantagem é que quase tudo se decide cedo: uma ferida vista no primeiro dia é um curativo, vista ao fim de duas semanas pode ser um internamento.
Qualquer infeção do pé com sinais sistémicos é emergência médica, segundo os critérios internacionais IDSA/IWGDF:
- febre acima de 38 °C ou temperatura abaixo de 36 °C
- pulsação acima de 90 batimentos por minuto
- respiração acima de 20 ciclos por minuto
- glóbulos brancos muito elevados na análise
A hospitalização é também recomendada perante isquemia grave do pé, envolvimento do osso (osteomielite), infeção com progressão rápida, necrose, gangrena ou sinais de sépsis.
Infeção ligeira (grau 2 da escala IDSA/IWGDF) é a presença de pelo menos dois destes sinais locais: inchaço ou endurecimento, vermelhidão entre 0,5 e 2 cm à volta da ferida, dor ou sensibilidade local, calor local aumentado, ou secreção purulenta. Trata-se em ambulatório, mas exige avaliação médica — não espera pela consulta marcada daqui a dois meses.
Infeção moderada — vermelhidão que se estende 2 cm ou mais a partir da ferida, ou que atinge tendão, músculo ou osso — pede avaliação mais urgente, sobretudo em quem tem outras doenças associadas.
O que é o pé diabético?
Pé diabético é a designação clínica para as alterações e lesões do pé associadas à diabetes: úlceras, infeções, deformidades e destruição de tecidos profundos, resultantes de neuropatia (lesão dos nervos), de doença arterial periférica (má circulação) ou da combinação das duas.
Não é uma doença que se apanha de um dia para o outro. É o ponto de chegada de anos de glicemia elevada a danificar nervos e vasos pequenos, e o motivo pelo qual a norma nº 005/2011 da Direção-Geral da Saúde impõe um rastreio anual dos pés a todas as pessoas com diabetes, tenham ou não queixas.
Porque é que uma ferida grave no pé pode não doer?
Porque a neuropatia diabética retira, precisamente, a capacidade de sentir dor. Os sintomas iniciais da neuropatia periférica são dormência, formigueiro, picadas ou sensação de queimadura nos pés e nas pernas, tipicamente mais intensos à noite. Depois disso vem a parte perigosa: a perda de sensibilidade à dor e à temperatura.
A dor é um sistema de alarme. Sem ela, uma pedra dentro do sapato, uma bolha de um sapato novo ou uma queimadura numa botija de água quente passam despercebidas durante dias.
Daí a regra que estrutura toda esta página: quem tem a diabetes há anos não pode usar a dor como critério para olhar para os pés. Tem de olhar por horário.
Que sinais procurar nos pés todos os dias?
O autoexame diário procura exatamente aquilo que o exame de risco do médico procura uma vez por ano:
- alterações de cor — vermelhidão, zonas escuras ou pretas
- inchaço, num pé ou nos dois
- calor localizado numa zona do pé
- bolhas, cortes ou feridas, mesmo que não doam
- unhas encravadas
- calos, sobretudo com hemorragia por baixo
- qualquer secreção ou cheiro anómalo
Estes são os mesmos achados que o exame anual procura, e a lista completa dos sintomas iniciais de lesão dos nervos está em o que pode acontecer sem controlo.
A planta do pé e o espaço entre os dedos são os locais que escapam.
Um espelho pousado no chão resolve o problema para quem não consegue dobrar-se. Uma segunda pessoa resolve-o melhor ainda.
Com que frequência devem ser observados os pés?
Uma vez por ano, no mínimo, e por um profissional. A norma da DGS estabelece que todas as pessoas com diabetes são avaliadas anualmente aos pés, com o objetivo de identificar fatores de risco de ulceração. Desse exame sai uma classificação em três categorias: risco baixo, médio ou alto.
Há uma pergunta que vale a pena levar à próxima consulta: «quando foi a última vez que me examinaram os pés e em que categoria de risco fiquei?»
A resposta define tudo o resto. A frequência das reavaliações, a necessidade de podologia, o tipo de calçado indicado.
Onde se trata o pé diabético em Portugal?
Em três níveis de cuidados, organizados pela norma da DGS, com porta de entrada no centro de saúde:
| Nível | Onde | Equipa |
|---|---|---|
| I | Centros de saúde (um por ACES) | médico, enfermeiro e podologia |
| II | Hospital | endocrinologista ou internista, cirurgião, podologia |
| III | Hospital com valência vascular completa | equipa do nível II mais cirurgião vascular, fisiatra e técnico de ortóteses |
O percurso normal é este: inscrição no centro de saúde da área de residência, avaliação do risco pelo médico ou enfermeiro de família e, se o risco for médio ou alto, referenciação para consulta hospitalar de nível II ou III.
Não sabe qual é o seu centro de saúde? O SNS 24 responde no 808 24 24 24.
Fora do SNS, a Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal tem departamento dedicado ao pé diabético, contactável em pe.diabetico@apdp.pt ou pelo 21 381 61 00.
Vale a pena registar isto porque é a resposta que falta na maioria dos artigos portugueses sobre o tema: existe uma rede organizada, com níveis definidos, e não apenas o conselho genérico de «consultar um médico».
O que é a classificação de Wagner?
A classificação de Wagner (ou Meggitt-Wagner) descreve a gravidade de uma lesão do pé diabético em seis graus, do pé de risco sem ferida à gangrena de todo o pé:
| Grau | O que descreve |
|---|---|
| 0 | Pé de risco, sem úlcera — pele intacta, pode haver deformidade |
| 1 | Úlcera superficial |
| 2 | Úlcera mais profunda, a atingir tendão ou cápsula articular, sem abcesso nem osteomielite |
| 3 | Úlcera profunda com abcesso, osteomielite ou infeção articular |
| 4 | Gangrena localizada — dedos, parte do antepé ou calcanhar |
| 5 | Gangrena extensa, a envolver todo o pé |
Agora a parte que quase nunca se lê. A Wagner é a escala mais procurada pelo público, mas o grupo internacional de trabalho sobre o pé diabético, na atualização de 2023 das suas guidelines, não a selecionou para uso clínico corrente nem para auditoria. A razão técnica é que a Wagner distingue mal a gravidade que vem da falta de circulação da que vem da infeção.
As classificações recomendadas hoje são a SINBAD, a da Universidade do Texas e a WIfI (ferida, isquemia e infeção do pé) para descrever úlceras, e a escala IDSA/IWGDF especificamente para a gravidade da infeção.
Se o seu médico falar em SINBAD ou WIfI e não em Wagner, não é desatualização — é o contrário.
Como se sabe se o pé diabético está infetado?
Pela contagem de sinais locais e pela extensão da vermelhidão, que é o critério que separa os três níveis da escala IDSA/IWGDF:
| Gravidade | Critério | O que fazer |
|---|---|---|
| Ligeira (grau 2) | pelo menos 2 sinais locais; vermelhidão de 0,5 a 2 cm | avaliação médica, tratável em ambulatório |
| Moderada | vermelhidão ≥ 2 cm, ou envolvimento de tendão, músculo ou osso | avaliação mais urgente |
| Grave | qualquer infeção com sinais sistémicos | urgência hospitalar |
Os sinais locais a contar são cinco: inchaço ou endurecimento, vermelhidão em redor da ferida, dor ou sensibilidade local, calor local aumentado e secreção purulenta. Bastam dois para se falar de infeção.
Repare no que isto significa na prática: dois centímetros de vermelhidão à volta de uma ferida — a largura de um dedo — é a fronteira entre «marcar consulta» e «ir hoje». Não é uma avaliação subjetiva, é uma medida.
Sapatos e meias para diabéticos
O calçado terapêutico com alívio comprovado de pressão na planta do pé reduz o risco de primeira úlcera ou de úlcera recorrente em pessoas de risco moderado a alto: risco relativo 0,53 face ao calçado próprio da pessoa.
Sejamos precisos sobre esse número, porque a maioria dos sites que o cita não é. O intervalo de confiança de 95% vai de 0,24 a 1,17: atravessa o 1 e não atinge significância estatística formal nesta estimativa agregada.
A recomendação mantém-se mesmo assim, por assimetria de custos. O custo de usar um sapato prescrito é desconforto. O custo de não o usar pode ser uma úlcera.
Para quem já teve uma úlcera na planta do pé entretanto cicatrizada — risco 3 na escala do grupo internacional —, a recomendação é usar o calçado prescrito de forma consistente, dentro e fora de casa.
O chão da cozinha às seis da manhã não é mais seguro do que o passeio.
Porque é que o sapato não pode ser escolhido «pelo conforto»
Porque a perda de sensibilidade protetora impede a pessoa de perceber que o sapato aperta.
Quem tem neuropatia avançada pode calçar um sapato pequeno e achá-lo confortável. Deixou de sentir a pressão que o denuncia.
Por isso o grupo internacional recomenda que o calçado seja avaliado por um profissional treinado, e não escolhido pela sensação de quem o calça. Calçado para pé diabético não é «comprar um número acima»: é ajuste de pressão medido por quem sabe medi-lo.
E as meias?
Aqui somos diretos. Não encontrámos, nas normas da DGS nem nas guidelines internacionais que usámos, nenhuma recomendação com número sobre meias para diabéticos.
A evidência que existe, com valor de risco relativo, é sobre calçado terapêutico. Não sobre meias.
O princípio é o mesmo do calçado: tudo o que fica entre o pé e o sapato pode criar pressão ou fricção que a pessoa não sente.
Quem vende meias prometendo prevenção de úlceras vai além do que as guidelines suportam. O que elas suportam é olhar para o pé todos os dias e ter o calçado avaliado por quem percebe.
As unhas contam?
Contam, e estão na lista de sinais do autoexame diário: unha encravada é um dos achados a comunicar. Uma unha encravada num pé sem sensibilidade pode ferir a pele e infetar sem que se note.
O cuidado das unhas não é tarefa improvisada em casa com a tesoura da gaveta.
Na estrutura definida pela DGS, a podologia faz parte da equipa logo no nível I, nos centros de saúde. É o profissional a quem esta parte compete, sobretudo em quem já foi classificado com risco médio ou alto.
Como é tratado o pé diabético?
O tratamento depende do que a avaliação encontrar. É por isso que existe a rede de três níveis.
Uma úlcera superficial sem infeção, uma úlcera com infeção ligeira e uma infeção com sinais sistémicos não têm o mesmo destino: a primeira segue em ambulatório, a segunda exige avaliação médica com tratamento dirigido, a terceira implica hospital.
O que decide não é o aspeto da ferida numa fotografia, mas a combinação de profundidade, circulação e infeção — exatamente o que as escalas SINBAD, WIfI e IDSA/IWGDF foram feitas para descrever de forma comparável entre profissionais.
Porque não publicamos fotografias de feridas do pé diabético
Sabemos que «pé diabético fotos» é uma das pesquisas mais frequentes sobre este tema, e percebemos porquê: quem tem uma ferida quer comparar a sua com outra e decidir se é grave.
Não publicamos essas imagens por duas razões. A primeira é que comparar fotografias é um mau método de decisão clínica — a gravidade decide-se por profundidade, circulação e sinais de infeção, e nada disso se vê numa imagem no telemóvel. A segunda é que uma galeria de feridas empurra as pessoas para a autoavaliação, quando o objetivo desta página é o contrário: dar critérios com números para procurar quem examina.
Os dois centímetros de vermelhidão e a lista de sinais sistémicos que estão em cima decidem melhor do que qualquer fotografia.
Reconhecer o que é grave é o objetivo; tratar a ferida não é
Ficam os critérios oficiais: o que a norma portuguesa obriga em termos de rastreio, como está organizada a rede de cuidados, o que descrevem as escalas de gravidade, quais são os sinais de infeção e o que a evidência mostra sobre calçado.
O tratamento da sua ferida não está. Não damos protocolos de penso, de desbridamento nem de antibiótico: são decisões de quem observa o pé, avalia a circulação e conhece o resto do seu quadro clínico.
As complicações previnem-se com controlo diário; o mapa completo do site mostra as peças desse controlo.
Fontes utilizadas
- Norma DGS nº 005/2011, «Diagnóstico Sistemático do Pé Diabético»: https://normas.dgs.min-saude.pt/2011/01/21/diagnostico-sistematico-do-pe-diabetico/
- IWGDF Guidelines 2023 — classificação de úlceras do pé diabético: https://iwgdfguidelines.org/wp-content/uploads/2023/07/IWGDF-2023-03-Classification-Guideline.pdf
- IWGDF Guidelines 2023 — prevenção, incluindo calçado terapêutico: https://iwgdfguidelines.org/wp-content/uploads/2023/07/IWGDF-2023-02-Prevention-Guideline.pdf
- IWGDF Guidelines 2023, página oficial das classificações recomendadas: https://iwgdfguidelines.org/guidelines-2023/
- IWGDF/IDSA Guidelines on Diabetes-related Foot Infections, Clinical Infectious Diseases, 2023 (DOI 10.1093/cid/ciad527): https://academic.oup.com/cid/advance-article/doi/10.1093/cid/ciad527/7287196
- SNS — consulta de pé diabético: https://www.sns.gov.pt/noticias/2016/07/08/consulta-de-pe-diabetico/
- Sintomas iniciais de neuropatia diabética periférica (estudo PREVANEDIA, SPD/GRENEDI): https://normas.dgs.min-saude.pt/2018/09/13/rastreio-da-retinopatia-diabetica/
Autor: Redação Açúcar no Sangue · como trabalhamos Publicado: 25 de agosto de 2026 · Última atualização: 25 de agosto de 2026
Nota de saúde. Esta página reúne critérios de normas públicas para que reconheça mais cedo o que é grave. Não avalia o seu pé nem substitui a observação de quem o pode fazer.
Marcas mencionadas. Nomes comerciais de calçado, meias ou dispositivos pertencem a quem os registou. A redação não representa nem é patrocinada por nenhum fabricante.