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Pé diabético: sinais, graus e quando é urgência

Números desta página

70% das amputações não traumáticas em Portugal vêm do pé diabético
1× por ano avaliação dos pés obrigatória em todas as pessoas com diabetes
3 níveis de cuidados organizados para o pé diabético no SNS
≥ 2 cm vermelhidão à volta da ferida que já é infeção moderada
0,53 risco relativo de úlcera com calçado terapêutico adequado

Resposta curta: pé diabético é o conjunto de lesões do pé que aparecem em quem tem a diabetes, por perda de sensibilidade nos nervos, má circulação ou ambas. É a causa de 70% de todas as amputações não traumáticas em Portugal — e é isso que justifica existir uma norma da Direção-Geral da Saúde só para este assunto. A vantagem é que quase tudo se decide cedo: uma ferida vista no primeiro dia é um curativo, vista ao fim de duas semanas pode ser um internamento.

Vá à urgência hospitalar agora

Qualquer infeção do pé com sinais sistémicos é emergência médica, segundo os critérios internacionais IDSA/IWGDF:

  • febre acima de 38 °C ou temperatura abaixo de 36 °C
  • pulsação acima de 90 batimentos por minuto
  • respiração acima de 20 ciclos por minuto
  • glóbulos brancos muito elevados na análise

A hospitalização é também recomendada perante isquemia grave do pé, envolvimento do osso (osteomielite), infeção com progressão rápida, necrose, gangrena ou sinais de sépsis.

Consulta médica esta semana, sem esperar pela rotina

Infeção ligeira (grau 2 da escala IDSA/IWGDF) é a presença de pelo menos dois destes sinais locais: inchaço ou endurecimento, vermelhidão entre 0,5 e 2 cm à volta da ferida, dor ou sensibilidade local, calor local aumentado, ou secreção purulenta. Trata-se em ambulatório, mas exige avaliação médica — não espera pela consulta marcada daqui a dois meses.

Infeção moderada — vermelhidão que se estende 2 cm ou mais a partir da ferida, ou que atinge tendão, músculo ou osso — pede avaliação mais urgente, sobretudo em quem tem outras doenças associadas.

O que é o pé diabético?

Pé diabético é a designação clínica para as alterações e lesões do pé associadas à diabetes: úlceras, infeções, deformidades e destruição de tecidos profundos, resultantes de neuropatia (lesão dos nervos), de doença arterial periférica (má circulação) ou da combinação das duas.

Não é uma doença que se apanha de um dia para o outro. É o ponto de chegada de anos de glicemia elevada a danificar nervos e vasos pequenos, e o motivo pelo qual a norma nº 005/2011 da Direção-Geral da Saúde impõe um rastreio anual dos pés a todas as pessoas com diabetes, tenham ou não queixas.

Porque é que uma ferida grave no pé pode não doer?

Porque a neuropatia diabética retira, precisamente, a capacidade de sentir dor. Os sintomas iniciais da neuropatia periférica são dormência, formigueiro, picadas ou sensação de queimadura nos pés e nas pernas, tipicamente mais intensos à noite. Depois disso vem a parte perigosa: a perda de sensibilidade à dor e à temperatura.

A dor é um sistema de alarme. Sem ela, uma pedra dentro do sapato, uma bolha de um sapato novo ou uma queimadura numa botija de água quente passam despercebidas durante dias.

Daí a regra que estrutura toda esta página: quem tem a diabetes há anos não pode usar a dor como critério para olhar para os pés. Tem de olhar por horário.

Que sinais procurar nos pés todos os dias?

O autoexame diário procura exatamente aquilo que o exame de risco do médico procura uma vez por ano:

  • alterações de cor — vermelhidão, zonas escuras ou pretas
  • inchaço, num pé ou nos dois
  • calor localizado numa zona do pé
  • bolhas, cortes ou feridas, mesmo que não doam
  • unhas encravadas
  • calos, sobretudo com hemorragia por baixo
  • qualquer secreção ou cheiro anómalo

Estes são os mesmos achados que o exame anual procura, e a lista completa dos sintomas iniciais de lesão dos nervos está em o que pode acontecer sem controlo.

A planta do pé e o espaço entre os dedos são os locais que escapam.

Um espelho pousado no chão resolve o problema para quem não consegue dobrar-se. Uma segunda pessoa resolve-o melhor ainda.

Com que frequência devem ser observados os pés?

Uma vez por ano, no mínimo, e por um profissional. A norma da DGS estabelece que todas as pessoas com diabetes são avaliadas anualmente aos pés, com o objetivo de identificar fatores de risco de ulceração. Desse exame sai uma classificação em três categorias: risco baixo, médio ou alto.

Há uma pergunta que vale a pena levar à próxima consulta: «quando foi a última vez que me examinaram os pés e em que categoria de risco fiquei?»

A resposta define tudo o resto. A frequência das reavaliações, a necessidade de podologia, o tipo de calçado indicado.

Onde se trata o pé diabético em Portugal?

Em três níveis de cuidados, organizados pela norma da DGS, com porta de entrada no centro de saúde:

Nível Onde Equipa
I Centros de saúde (um por ACES) médico, enfermeiro e podologia
II Hospital endocrinologista ou internista, cirurgião, podologia
III Hospital com valência vascular completa equipa do nível II mais cirurgião vascular, fisiatra e técnico de ortóteses

O percurso normal é este: inscrição no centro de saúde da área de residência, avaliação do risco pelo médico ou enfermeiro de família e, se o risco for médio ou alto, referenciação para consulta hospitalar de nível II ou III.

Não sabe qual é o seu centro de saúde? O SNS 24 responde no 808 24 24 24.

Fora do SNS, a Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal tem departamento dedicado ao pé diabético, contactável em pe.diabetico@apdp.pt ou pelo 21 381 61 00.

Vale a pena registar isto porque é a resposta que falta na maioria dos artigos portugueses sobre o tema: existe uma rede organizada, com níveis definidos, e não apenas o conselho genérico de «consultar um médico».

O que é a classificação de Wagner?

A classificação de Wagner (ou Meggitt-Wagner) descreve a gravidade de uma lesão do pé diabético em seis graus, do pé de risco sem ferida à gangrena de todo o pé:

Grau O que descreve
0 Pé de risco, sem úlcera — pele intacta, pode haver deformidade
1 Úlcera superficial
2 Úlcera mais profunda, a atingir tendão ou cápsula articular, sem abcesso nem osteomielite
3 Úlcera profunda com abcesso, osteomielite ou infeção articular
4 Gangrena localizada — dedos, parte do antepé ou calcanhar
5 Gangrena extensa, a envolver todo o pé

Agora a parte que quase nunca se lê. A Wagner é a escala mais procurada pelo público, mas o grupo internacional de trabalho sobre o pé diabético, na atualização de 2023 das suas guidelines, não a selecionou para uso clínico corrente nem para auditoria. A razão técnica é que a Wagner distingue mal a gravidade que vem da falta de circulação da que vem da infeção.

As classificações recomendadas hoje são a SINBAD, a da Universidade do Texas e a WIfI (ferida, isquemia e infeção do pé) para descrever úlceras, e a escala IDSA/IWGDF especificamente para a gravidade da infeção.

Se o seu médico falar em SINBAD ou WIfI e não em Wagner, não é desatualização — é o contrário.

Como se sabe se o pé diabético está infetado?

Pela contagem de sinais locais e pela extensão da vermelhidão, que é o critério que separa os três níveis da escala IDSA/IWGDF:

Gravidade Critério O que fazer
Ligeira (grau 2) pelo menos 2 sinais locais; vermelhidão de 0,5 a 2 cm avaliação médica, tratável em ambulatório
Moderada vermelhidão ≥ 2 cm, ou envolvimento de tendão, músculo ou osso avaliação mais urgente
Grave qualquer infeção com sinais sistémicos urgência hospitalar

Os sinais locais a contar são cinco: inchaço ou endurecimento, vermelhidão em redor da ferida, dor ou sensibilidade local, calor local aumentado e secreção purulenta. Bastam dois para se falar de infeção.

Repare no que isto significa na prática: dois centímetros de vermelhidão à volta de uma ferida — a largura de um dedo — é a fronteira entre «marcar consulta» e «ir hoje». Não é uma avaliação subjetiva, é uma medida.

Sapatos e meias para diabéticos

O calçado terapêutico com alívio comprovado de pressão na planta do pé reduz o risco de primeira úlcera ou de úlcera recorrente em pessoas de risco moderado a alto: risco relativo 0,53 face ao calçado próprio da pessoa.

Sejamos precisos sobre esse número, porque a maioria dos sites que o cita não é. O intervalo de confiança de 95% vai de 0,24 a 1,17: atravessa o 1 e não atinge significância estatística formal nesta estimativa agregada.

A recomendação mantém-se mesmo assim, por assimetria de custos. O custo de usar um sapato prescrito é desconforto. O custo de não o usar pode ser uma úlcera.

Para quem já teve uma úlcera na planta do pé entretanto cicatrizada — risco 3 na escala do grupo internacional —, a recomendação é usar o calçado prescrito de forma consistente, dentro e fora de casa.

O chão da cozinha às seis da manhã não é mais seguro do que o passeio.

Porque é que o sapato não pode ser escolhido «pelo conforto»

Porque a perda de sensibilidade protetora impede a pessoa de perceber que o sapato aperta.

Quem tem neuropatia avançada pode calçar um sapato pequeno e achá-lo confortável. Deixou de sentir a pressão que o denuncia.

Por isso o grupo internacional recomenda que o calçado seja avaliado por um profissional treinado, e não escolhido pela sensação de quem o calça. Calçado para pé diabético não é «comprar um número acima»: é ajuste de pressão medido por quem sabe medi-lo.

E as meias?

Aqui somos diretos. Não encontrámos, nas normas da DGS nem nas guidelines internacionais que usámos, nenhuma recomendação com número sobre meias para diabéticos.

A evidência que existe, com valor de risco relativo, é sobre calçado terapêutico. Não sobre meias.

O princípio é o mesmo do calçado: tudo o que fica entre o pé e o sapato pode criar pressão ou fricção que a pessoa não sente.

Quem vende meias prometendo prevenção de úlceras vai além do que as guidelines suportam. O que elas suportam é olhar para o pé todos os dias e ter o calçado avaliado por quem percebe.

As unhas contam?

Contam, e estão na lista de sinais do autoexame diário: unha encravada é um dos achados a comunicar. Uma unha encravada num pé sem sensibilidade pode ferir a pele e infetar sem que se note.

O cuidado das unhas não é tarefa improvisada em casa com a tesoura da gaveta.

Na estrutura definida pela DGS, a podologia faz parte da equipa logo no nível I, nos centros de saúde. É o profissional a quem esta parte compete, sobretudo em quem já foi classificado com risco médio ou alto.

Como é tratado o pé diabético?

O tratamento depende do que a avaliação encontrar. É por isso que existe a rede de três níveis.

Uma úlcera superficial sem infeção, uma úlcera com infeção ligeira e uma infeção com sinais sistémicos não têm o mesmo destino: a primeira segue em ambulatório, a segunda exige avaliação médica com tratamento dirigido, a terceira implica hospital.

O que decide não é o aspeto da ferida numa fotografia, mas a combinação de profundidade, circulação e infeção — exatamente o que as escalas SINBAD, WIfI e IDSA/IWGDF foram feitas para descrever de forma comparável entre profissionais.

Porque não publicamos fotografias de feridas do pé diabético

Sabemos que «pé diabético fotos» é uma das pesquisas mais frequentes sobre este tema, e percebemos porquê: quem tem uma ferida quer comparar a sua com outra e decidir se é grave.

Não publicamos essas imagens por duas razões. A primeira é que comparar fotografias é um mau método de decisão clínica — a gravidade decide-se por profundidade, circulação e sinais de infeção, e nada disso se vê numa imagem no telemóvel. A segunda é que uma galeria de feridas empurra as pessoas para a autoavaliação, quando o objetivo desta página é o contrário: dar critérios com números para procurar quem examina.

Os dois centímetros de vermelhidão e a lista de sinais sistémicos que estão em cima decidem melhor do que qualquer fotografia.

Reconhecer o que é grave é o objetivo; tratar a ferida não é

Ficam os critérios oficiais: o que a norma portuguesa obriga em termos de rastreio, como está organizada a rede de cuidados, o que descrevem as escalas de gravidade, quais são os sinais de infeção e o que a evidência mostra sobre calçado.

O tratamento da sua ferida não está. Não damos protocolos de penso, de desbridamento nem de antibiótico: são decisões de quem observa o pé, avalia a circulação e conhece o resto do seu quadro clínico.

As complicações previnem-se com controlo diário; o mapa completo do site mostra as peças desse controlo.

Fontes utilizadas


Autor: Redação Açúcar no Sangue · como trabalhamos Publicado: 25 de agosto de 2026 · Última atualização: 25 de agosto de 2026

Nota de saúde. Esta página reúne critérios de normas públicas para que reconheça mais cedo o que é grave. Não avalia o seu pé nem substitui a observação de quem o pode fazer.

Marcas mencionadas. Nomes comerciais de calçado, meias ou dispositivos pertencem a quem os registou. A redação não representa nem é patrocinada por nenhum fabricante.

Perguntas frequentes

Como começa o pé diabético?

Começa antes de haver ferida, com a perda de sensibilidade nos pés: dormência, formigueiro, picadas ou queimadura, muitas vezes piores à noite.

Nessa fase o pé ainda está intacto. Já é, na classificação de Wagner, o grau 0 — pé de risco.

O pé diabético tem cura?

Uma úlcera pode cicatrizar, e muitas cicatrizam. O que não desaparece é a condição do pé que a permitiu: quem já teve uma úlcera plantar cicatrizada é classificado como risco 3 e mantém indicação para usar o calçado prescrito dentro e fora de casa.

Que sinais indicam que o pé diabético está infetado?

Pelo menos dois destes sinais locais: inchaço ou endurecimento, vermelhidão de 0,5 a 2 cm em redor da ferida, dor ou sensibilidade, calor local e secreção purulenta. A partir de 2 cm de vermelhidão, ou com atingimento de tendão, músculo ou osso, a infeção é considerada moderada.

Quando é que uma ferida no pé é uma urgência?

Quando há febre acima de 38 °C ou temperatura abaixo de 36 °C, pulsação acima de 90 por minuto, respiração acima de 20 por minuto ou glóbulos brancos muito elevados. Também com necrose, gangrena, progressão rápida ou suspeita de envolvimento do osso.

Como marcar uma consulta de pé diabético no SNS?

Pelo centro de saúde da área de residência: o médico ou enfermeiro de família faz a avaliação de risco e, se for médio ou alto, referencia para consulta hospitalar. Para saber qual é o seu centro de saúde, ligue para o SNS 24, no 808 24 24 24.

Quem deve cortar as unhas de quem tem pé diabético?

A podologia integra a equipa de nível I, nos centros de saúde, precisamente para esta função.

Em pessoas com risco médio ou alto, o corte de unhas e o tratamento de calos em casa é origem frequente de feridas que ninguém sentiu abrir.

As meias para diabéticos valem a pena?

Não encontrámos evidência com número, nas normas que consultámos, para meias específicas. A evidência existente refere-se a calçado terapêutico com alívio de pressão comprovado, com risco relativo de 0,53 para nova úlcera.

De quanto em quanto tempo devo ver os meus pés?

Todos os dias, incluindo a planta e os espaços entre os dedos — se necessário com um espelho. E uma vez por ano, no mínimo, por um profissional de saúde, como determina a norma da DGS.

Autor: Redação Açúcar no Sangue 25 de agosto de 2026