Resposta curta: em jejum, a glicemia normal fica entre 70 e 99 mg/dl. Entre 110 e 125 mg/dl a norma da DGS classifica o resultado como anomalia da glicemia de jejum, uma zona de risco aumentado. A partir de 126 mg/dl em jejum fala-se em diabetes — mas só depois de confirmar o valor numa segunda análise, se não houver sintomas. Duas horas depois de uma refeição, o valor normal é inferior a 140 mg/dl.
Esta página junta num só sítio os cortes numéricos da Norma nº 002/2011 da Direção-Geral da Saúde, a leitura de cada faixa e o passo seguinte concreto. As fontes estão ligadas junto de cada número e listadas no fim. É material para chegar à consulta com as perguntas certas e para perceber o papel que aparece no envelope do laboratório.
Diagnóstico, indicação de tratamento ou dose de medicamento ficam fora daqui. Diagnosticar exige historial clínico, exame e confirmação laboratorial — coisas que uma página não substitui.
O que é a glicemia e o que é que ela mede
Glicemia é a concentração de glicose no sangue. Em Portugal exprime-se em miligramas por decilitro (mg/dl); nos artigos científicos, em milimoles por litro (mmol/l).
É um retrato do momento — quanto açúcar circulava no sangue no instante da colheita ou da picada no dedo. Um retrato, não um filme.
Uma pesquisa que aparece muitas vezes é "glicada ou glicemia". São exames diferentes e não se substituem. A glicemia mede o momento; a hemoglobina glicada, ou HbA1c, mede a média dos últimos dois a três meses, porque avalia a percentagem de hemoglobina ligada a glicose e os glóbulos vermelhos vivem cerca de três meses.
Daí a regra prática: um valor de glicemia responde a "como estou agora"; a HbA1c responde a "como tenho estado".
Tabela: o valor em jejum, o que significa e o que fazer
A tabela seguinte usa os cortes da Norma nº 002/2011 da DGS para plasma venoso, o sangue colhido no braço e analisado em laboratório.
| Glicemia em jejum | Como se lê | Passo seguinte |
|---|---|---|
| < 70 mg/dl | Hipoglicemia | Tratar já: regra dos 15/15; se houver perda de consciência, 112 |
| 70–99 mg/dl | Normal | Repetir nos rastreios de rotina |
| 100–109 mg/dl | Normal para a DGS, já pré-diabetes para a SPEDM/ADA | Falar com o médico de família; ver a divergência explicada abaixo |
| 110–125 mg/dl | Anomalia da glicemia de jejum (risco aumentado) | Consulta médica; muitas vezes segue-se PTGO ou HbA1c |
| ≥ 126 mg/dl | Critério de diabetes | Confirmar em segunda análise, 1 a 2 semanas depois, se não houver sintomas |
O valor de 126 mg/dl corresponde a 7,0 mmol/l, unidade que aparece em fontes internacionais. É o mesmo número, noutra escala.
Glicemia em jejum: o que a análise mede
A glicemia de jejum mede-se em plasma venoso, no laboratório, depois de um período sem comer definido pelo pedido médico.
É a análise mais usada em Portugal como primeiro passo. Barata, rápida, comparável entre laboratórios.
Entre 70 e 99 mg/dl o resultado é considerado normal. A norma da DGS coloca em 110–125 mg/dl a categoria de anomalia da glicemia de jejum, que não é diabetes mas identifica risco aumentado de vir a ter. Igual ou acima de 126 mg/dl entra no critério de diabetes.
Quem chega a esta página a perguntar "glicemia alta a partir de quanto" tem portanto duas respostas, e ambas contam: acima de 99 mg/dl deixa de ser normal, acima de 125 mg/dl deixa de ser apenas risco.
Glicemia depois de comer: o valor pós-prandial
Glicemia pós-prandial é a medição feita duas horas depois do início da refeição. Considera-se normal um valor inferior a 140 mg/dl.
| Duas horas depois de comer | Como se lê |
|---|---|
| < 140 mg/dl | Normal |
| 140–199 mg/dl | Tolerância diminuída à glicose (categoria de risco aumentado) |
| ≥ 200 mg/dl | Critério de diabetes, na prova de tolerância à glicose oral |
As faixas de 140–199 e ≥ 200 mg/dl da norma da DGS referem-se ao valor às duas horas na prova de tolerância à glicose oral, feita com uma dose padronizada de glicose.
Uma medição em casa, depois de um almoço qualquer, não é a mesma coisa. Não serve para diagnosticar. Serve para acompanhar como o corpo responde àquela refeição.
PTGO: a prova das duas horas
A PTGO — prova de tolerância à glicose oral — mede a glicemia duas horas depois de a pessoa beber uma solução com 75 g de glicose.
O que se vê ali é a resposta do organismo a uma carga de açúcar controlada, não apenas o valor de partida.
Resultado às duas horas entre 140 e 199 mg/dl: tolerância diminuída à glicose, categoria de risco aumentado na norma da DGS. Resultado igual ou superior a 200 mg/dl (11,1 mmol/l): critério de diabetes.
É a prova que costuma resolver casos duvidosos, em que a glicemia de jejum está na fronteira e a HbA1c não é conclusiva. Quem pede é o médico — a prova exige preparação e colheitas cronometradas.
Glicemia ocasional de 200 mg/dl ou mais
Uma glicemia ocasional, medida a qualquer hora do dia e sem relação com as refeições, igual ou superior a 200 mg/dl acompanhada dos sintomas clássicos é, por si só, critério de diabetes na norma da DGS.
Sintomas clássicos são sede excessiva, boca seca, urinar com muita frequência, cansaço, visão turva e dor de cabeça.
Nesta combinação — número alto mais sintomas — não se espera pela repetição da análise. Procura-se avaliação médica.
Valores de glicemia que obrigam a agir de imediato
Glicemia igual ou inferior a 70 mg/dl é hipoglicemia. Trata-se já. Não se espera para ver. Sinais típicos: tremores, palpitações, suores frios, fome súbita, visão turva, tonturas, irritabilidade, formigueiro nos lábios.
Regra dos 15/15, para quem está consciente e consegue engolir: tomar 15 g de açúcar de absorção rápida (duas colheres de sopa de açúcar dissolvidas em água, ou um sumo/refrigerante não-dietético), esperar 15 minutos e voltar a medir. Se continuar em 70 mg/dl ou abaixo, repetir mais 15 g e esperar outros 15 minutos, até chegar perto de 100 mg/dl. Chocolate e bolachas não são a primeira escolha: a gordura atrasa a absorção do açúcar.
Se a pessoa estiver inconsciente ou não reagir, não dar nada para comer nem beber — há risco de engasgamento. Ligar 112 de imediato.
Ligar também 112 perante sinais de descompensação grave com glicemia elevada: confusão mental, respiração muito rápida e profunda, vómitos que não param. Para um problema agudo mas sem risco de vida, o número é o SNS 24, 808 24 24 24, que faz triagem por telefone e diz para onde ir.
HbA1c e glicemia média estimada: a ponte entre os dois exames
A HbA1c igual ou superior a 6,5% é critério de diagnóstico de diabetes na norma da DGS, e uma fórmula do estudo ADAG traduz essa percentagem em miligramas por decilitro — a glicemia média estimada. É por isso que 6,5% equivalem a uma média de cerca de 140 mg/dl.
A conta nos dois sentidos, a tabela de conversão linha a linha e o que a média esconde sobre a variabilidade do dia a dia estão em HbA1c e o que ela mede.
110 ou 100 mg/dl? Onde as fontes divergem, e porquê
A norma nº 002/2011 da DGS fixa o corte de 110 mg/dl para a anomalia da glicemia de jejum. A SPEDM baixa-o para 100 mg/dl.
A sociedade científica portuguesa da especialidade segue os critérios da ADA e define pré-diabetes a partir desse valor em jejum, ou 140–199 mg/dl na PTGO, ou HbA1c de 5,7 a 6,4%.
A zona entre 100 e 109 mg/dl é, portanto, normal-alta para a norma nacional e já pré-diabetes para o critério da SPEDM/ADA. Não é erro de nenhuma das duas: são réguas diferentes, com histórias diferentes.
Para quem tem um resultado nessa faixa, a consequência prática é simples: merece conversa com o médico e não merece pânico.
É também a faixa em que mais conta o que acontece a seguir. A intervenção precoce está estudada exatamente aqui — ver a fase anterior ao diagnóstico.
O glucómetro em casa não mede o mesmo que o laboratório
Os valores de diagnóstico da norma da DGS são para plasma venoso analisado em laboratório.
Os glucómetros domésticos medem outra coisa: sangue capilar, o da picada no dedo. A maioria está calibrada para apresentar um valor equivalente a plasma, e mesmo assim a concordância não é perfeita.
A norma ISO 15197, que rege a exatidão destes aparelhos, admite uma margem de erro de ±15% face ao método laboratorial de referência.
Faça a conta numa leitura de 126 mg/dl: a margem cobre de 107 a 145 mg/dl.
Conclusão honesta: um número de glucómetro doméstico não confirma nem exclui um diagnóstico.
O aparelho serve para acompanhar a evolução no dia a dia e para apanhar valores de alarme. Diagnosticar, não — isso faz-se com análise laboratorial.
Um valor isolado não faz diagnóstico
Numa pessoa sem sintomas, o diagnóstico não assenta num único valor anómalo de glicemia de jejum ou de HbA1c.
A norma da DGS exige confirmação numa segunda análise, feita 1 a 2 semanas depois.
Um valor pode subir por infeção, por medicação em curso, por stress agudo ou por erro pré-analítico. É por isso que o médico manda repetir o exame em vez de prescrever logo tratamento.
Para quem recebeu um resultado assustador por e-mail, isto é uma boa notícia.
A exceção está descrita acima: sintomas clássicos com glicemia ocasional de 200 mg/dl ou mais dispensam a repetição e pedem avaliação imediata.
Glicemia alta: o que a pessoa sente
Os sintomas de glicemia elevada instalam-se devagar. É por isso que tanta gente convive com valores altos sem desconfiar.
Os mais descritos são sede excessiva, boca seca, urinar com mais frequência, cansaço, visão turva e dor de cabeça.
A instalação lenta tem uma consequência epidemiológica concreta em Portugal: da prevalência estimada de 14,2% da população adulta em 2024, 6,0 pontos percentuais correspondem a diabetes ainda não diagnosticada — cerca de 42% dos casos.
Hiperglicemia muito elevada e prolongada, sobretudo sem tratamento, pode evoluir para cetoacidose diabética, mais frequente na diabetes tipo 1, ou para síndrome hiperosmolar, mais associada à tipo 2 em situação grave. São emergências: os sinais e o momento de ligar 112 estão no bloco vermelho dos valores que obrigam a agir. Os sintomas por escalão estão detalhados em sintomas da diabetes.
Glicemia baixa: o que a pode causar
A causa mais bem documentada de hipoglicemia em quem tem diabetes é a própria medicação. Insulina, sulfonilureias, meglitinidas.
Qualquer uma pode baixar a glicemia abaixo do necessário, sobretudo se houver uma refeição saltada, uma dose desajustada ou exercício não previsto.
A metformina, por si só, não provoca hipoglicemia. O risco aparece quando é combinada com os fármacos acima — ponto explicado em detalhe na página da doses e efeitos da metformina.
Uma hipoglicemia repetida nunca é só um episódio para resolver com açúcar. É sinal de que o esquema terapêutico precisa de revisão médica.
E numa pessoa sem diabetes nem medicação antidiabética, uma glicemia baixa documentada exige investigação da causa, não autotratamento.
Quanto custa a análise de glicemia? Porque fica sem número
Sabemos que "quanto custa a análise de glicemia" é uma pergunta frequente e legítima. Não publicamos um valor porque não o conseguimos confirmar numa tabela oficial de preços de laboratório na verificação de agosto de 2026, e um número aproximado numa página de saúde tem o mau hábito de ser citado como se fosse exato.
O que se pode dizer com segurança: a glicemia de jejum é das análises mais simples do painel de rotina, é comparticipada quando pedida por um médico do SNS, e o valor a pagar depende do laboratório e da convenção. Assim que tivermos uma tabela verificável, o número entra aqui com data e fonte.
Se chegou aqui por um valor concreto e quer o resto do mapa, a entrada do Açúcar no Sangue organiza os temas pela ordem em que costumam aparecer: diagnóstico, tratamento, autocontrolo e alimentação.
Fontes utilizadas 9
| Documento | Fonte |
|---|---|
| Norma DGS nº 002/2011, Diagnóstico e Classificação da Diabetes Mellitus (jejum ≥126, ocasional ≥200, PTGO ≥200, HbA1c ≥6,5%, AGJ 110–125, TDG 140–199, confirmação obrigatória, normal 70–99 e pós-prandial <140) | normas.dgs.min-saude.pt |
| SPEDM, Pré-diabetes (critério 100–125 mg/dl, HbA1c 5,7–6,4%) | spedm.pt |
| Nathan DM et al., Translating the A1C Assay Into Estimated Average Glucose Values, Diabetes Care 2008;31(8):1473-1478 (fórmula eAG) | diabetesjournals.org |
| Limiar de hipoglicemia (≤70 mg/dl), sintomas e regra dos 15/15 | inem.pt |
| INEM, hipoglicemia com perda de consciência — não dar nada por via oral, ligar 112 | inem.pt |
| SNS 24, quando ligar SNS 24 ou INEM | sns24.gov.pt |
| MSD Manuals (edição profissional, português), sintomas de hiperglicemia e evolução para cetoacidose/síndrome hiperosmolar | msdmanuals.com |
| Relatório Anual do Observatório Nacional da Diabetes, SPD (prevalência 14,2% e diabetes não diagnosticada em 2024) | relatorioanualdiabetes.com |
| Folheto informativo Metformina toLife, Towa Pharmaceutical (metformina isolada não provoca hipoglicemia) | towapharmaceutical.pt |
Autor: Redação Açúcar no Sangue · como trabalhamos
Nota clínica. Esta página é jornalismo de saúde com fontes à vista, não um ato médico. Nenhum número aqui listado substitui a leitura que o seu médico faz do seu caso, do seu historial e das suas análises.
Normas citadas. Os valores correspondem à Norma nº 002/2011 da DGS, em vigor à data desta verificação.
Marcas citadas. Quando referimos aparelhos ou medicamentos por nome, fazemo-lo a título informativo. Não representamos nenhum fabricante e não recebemos pagamento para os mencionar nesta página.
Perguntas frequentes
Glicemia em jejum de 105 mg/dl é diabetes?
Glicemia em jejum de 105 mg/dl é diabetes?
Não. Pela norma da DGS, 105 mg/dl está abaixo do corte de 110 mg/dl da anomalia da glicemia de jejum, e muito abaixo dos 126 mg/dl do critério de diabetes. Pelo critério da SPEDM/ADA, já entra na faixa de pré-diabetes (100–125 mg/dl). É um valor para mostrar ao médico, não para tratar por conta própria.
Qual é a glicemia normal depois de comer?
Qual é a glicemia normal depois de comer?
Duas horas depois da refeição, considera-se normal um valor inferior a 140 mg/dl. Entre 140 e 199 mg/dl na prova de tolerância à glicose oral fala-se em tolerância diminuída à glicose; 200 mg/dl ou mais nessa prova é critério de diabetes.
Glicemia média estimada de 137 mg/dl corresponde a que HbA1c?
Glicemia média estimada de 137 mg/dl corresponde a que HbA1c?
A cerca de 6,4%, pela fórmula do estudo ADAG: HbA1c = (137 + 46,7) ÷ 28,7. É um valor imediatamente abaixo do corte de diagnóstico de 6,5%, ou seja, na faixa que a SPEDM classifica como pré-diabetes.
O valor do glucómetro serve para diagnosticar diabetes?
O valor do glucómetro serve para diagnosticar diabetes?
Não. Os cortes da norma são para plasma venoso de laboratório, e a norma ISO 15197 admite uma margem de ±15% nos glucómetros domésticos. O aparelho serve para acompanhar e para detetar valores de alarme; o diagnóstico faz-se em laboratório.
Porque é que o médico mandou repetir a análise?
Porque é que o médico mandou repetir a análise?
Porque a norma da DGS exige que, numa pessoa sem sintomas, um valor alterado de glicemia de jejum ou de HbA1c seja confirmado numa segunda análise 1 a 2 semanas depois. Um resultado isolado pode estar influenciado por doença aguda, medicação ou variação do próprio dia.
Glicemia e hemoglobina glicada medem a mesma coisa?
Glicemia e hemoglobina glicada medem a mesma coisa?
Não. Uma é uma fotografia, a outra é o resumo do trimestre: a glicemia dá o valor daquele instante, a HbA1c dá a média dos últimos dois a três meses. São exames complementares, e é normal o médico pedir os dois.
A partir de que valor a glicemia é considerada baixa?
A partir de que valor a glicemia é considerada baixa?
Igual ou inferior a 70 mg/dl. É o limiar de ação usado na prática clínica: trata- se de imediato com 15 g de açúcar de absorção rápida e reavalia-se ao fim de 15 minutos.
126 mg/dl e 7,0 mmol/l são valores diferentes?
126 mg/dl e 7,0 mmol/l são valores diferentes?
Não, são o mesmo valor em unidades diferentes. Portugal usa mg/dl nos boletins de análises; grande parte da literatura internacional usa mmol/l. O corte de diagnóstico em jejum é 126 mg/dl ou, equivalentemente, 7,0 mmol/l.