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Complicações da diabetes: olhos, rins e nervos

Resposta curta: as complicações crónicas da diabetes atingem sobretudo os vasos pequenos de três órgãos — a retina, o rim e os nervos periféricos — e todas têm uma coisa em comum: começam sem sintomas. É por isso que Portugal tem normas que obrigam a rastreá-las por calendário, e não à espera de queixas. Quem faz os rastreios apanha-as na fase em que ainda há muito a fazer.

Quais são as complicações crónicas da diabetes?

As complicações crónicas resultam do dano que a glicemia elevada mantida ao longo dos anos provoca nos vasos sanguíneos. Nos vasos pequenos, três órgãos concentram o problema:

Órgão Complicação Como se deteta cedo
Retina Retinopatia diabética retinografia anual, mesmo sem sintomas
Rim Nefropatia diabética albuminúria, creatinémia e TFG anuais
Nervos periféricos Neuropatia diabética exame dos pés e sintomas de dormência ou queimadura

O pé diabético é, em rigor, o resultado combinado de duas destas vias — a lesão dos nervos e a má circulação — e tem página própria, porque tem norma própria e critérios de urgência próprios.

O que a diabetes faz aos olhos?

A retinopatia diabética é o dano progressivo dos pequenos vasos da retina, causado por glicemia elevada mantida ao longo do tempo.

Os vasos tornam-se permeáveis, entopem ou proliferam de forma anómala. A retina — a camada que converte a luz em sinal nervoso — deixa de funcionar bem nas zonas afetadas.

Nas fases iniciais não há sintomas percetíveis. Esta é a característica clínica mais importante da doença e a razão de todo o programa de rastreio.

A retinopatia diabética é uma das principais causas de cegueira evitável em adultos em idade ativa nos países desenvolvidos.

A palavra a sublinhar é evitável. O rastreio existe porque a deteção precoce muda o desfecho.

De quanto em quanto tempo se faz o rastreio da retinopatia?

A norma nº 016/2018 da Direção-Geral da Saúde define calendários diferentes conforme o tipo de diabetes:

Situação Quando começa Periodicidade
Diabetes tipo 2 desde o diagnóstico anual
Diabetes tipo 1 5 anos após o diagnóstico anual a partir daí
Gravidez ou intenção de engravidar antes de engravidar ou, no máximo, no 1.º trimestre definida pelo oftalmologista

O exame de rastreio consiste em duas retinografias por olho: uma centrada na mácula, outra na papila. São obtidas com retinógrafo de câmara não midriática e executadas por técnico treinado.

Câmara não midriática quer dizer, na prática, que o exame dispensa em regra a dilatação da pupila com gotas.

O caso da gravidez merece nota à parte: as mulheres com diabetes que estão grávidas ou a planear engravidar são encaminhadas para oftalmologia com prioridade, e a periodicidade das reavaliações seguintes não é fixa — é decidida pelo oftalmologista conforme o quadro clínico.

Ver bem não é prova de que a retina está bem

A retinopatia diabética não costuma dar sintomas percetíveis nas fases iniciais. É exatamente por isso que o rastreio é feito mesmo sem queixas de visão: quando a visão começa a falhar, a lesão dos vasos da retina já vem de trás. «Vejo bem, não preciso de ir» é o raciocínio que mais atrasa o diagnóstico.

Como se deteta a lesão dos rins?

Pela mesma lógica de calendário. A norma nº 003/2011 da DGS estabelece rastreio anual da nefropatia diabética: para a diabetes tipo 2 desde o diagnóstico, para a diabetes tipo 1 a partir dos 5 anos após o diagnóstico.

O rastreio tem três componentes:

  • doseamento de albuminúria ou proteinúria
  • doseamento de creatinémia
  • avaliação anual da taxa de filtração glomerular (TFG)

Há ainda uma regra de confirmação que evita conclusões precipitadas: se a tira-teste de microalbuminúria for positiva, deve repetir-se com outra tira-teste 3 a 4 meses depois, antes de se confirmar seja o que for.

O que pode falsear uma análise de microalbuminúria

A própria norma da DGS enumera as situações em que o doseamento não deve ser feito, porque a albuminúria pode estar elevada sem que exista nefropatia diabética. Nas 24 horas anteriores à recolha:

  • exercício físico moderado ou intenso
  • infeção urinária
  • febre
  • insuficiência cardíaca congestiva
  • descompensação da glicemia
  • hipertensão arterial não controlada

Isto explica uma situação que assusta muita gente: um valor alterado numa análise feita no dia a seguir a uma ida ao ginásio, ou durante uma infeção urinária, pode não significar doença renal nenhuma. Um resultado é um ponto, não um diagnóstico.

Ler as suas análises e escolher o seu tratamento é o que uma página não faz. Aqui ficam os calendários de rastreio das normas portuguesas, o que cada exame inclui e o que o pode falsear. Um valor de albuminúria, uma retinografia ou a decisão sobre um fármaco para a dor neuropática interpretam-se com o processo clínico à frente — e isso é do médico que o segue.

Quais são os primeiros sintomas da neuropatia diabética?

Dormência, formigueiro, picadas ou sensação de queimadura nos pés e nas pernas, quase sempre piores à noite.

Os pés são afetados primeiro. E a evolução é insidiosa: pode decorrer durante anos sem sintomas percetíveis.

O que torna a neuropatia perigosa não é o incómodo. É o silêncio que vem a seguir.

A perda de sensibilidade à dor e à temperatura significa que uma ferida deixa de doer e, por isso, deixa de ser notada. É a mesma perda que está na origem do pé diabético — e a razão pela qual a inspeção diária dos pés substitui a dor como sistema de alarme.

Qual é o tratamento da neuropatia diabética dolorosa?

A guideline britânica NICE sobre dor neuropática (CG173) manda oferecer, como tratamento inicial, uma escolha entre quatro fármacos: amitriptilina, duloxetina, gabapentina ou pregabalina.

Se o primeiro não resultar ou não for tolerado, passa-se a um dos três restantes. E assim sucessivamente.

A mesma guideline é explícita sobre a venlafaxina, que aparece em muitos artigos como opção corrente: não deve ser iniciada fora de contexto especializado, salvo indicação de um especialista.

Todos são medicamentos sujeitos a receita médica. A dose, a escolha entre eles e o ajuste ao longo do tempo são decisões clínicas, dependentes de outras medicações e de outras doenças que a pessoa tenha. Não damos doses nesta página: a dose certa é a que o médico ajusta ao caso concreto, e nenhum texto substitui esse ajuste.

O ácido alfa-lipoico funciona para a neuropatia diabética?

A revisão sistemática mais recente não encontrou diferença clara em relação ao placebo. É um resultado desconfortável de escrever, porque o ácido alfa-lipoico é vendido em farmácias e parafarmácias portuguesas como suplemento «para os nervos» — mas é o que os dados mostram.

A revisão Cochrane de 2024 (Baicus C. e colegas) reuniu 3 ensaios clínicos controlados por placebo, com 816 participantes adultos, idade média de 57,8 anos e tratamento de pelo menos 6 meses. Aos 6 meses, não ficou demonstrada diferença clara entre o ácido alfa-lipoico e o placebo na redução dos sintomas de neuropatia periférica diabética. A certeza da evidência foi classificada como moderada a baixa pelo método GRADE.

Há ainda duas ausências que dizem muito: nenhum dos estudos incluídos mediu o efeito na qualidade de vida, e nenhum mediu o efeito nas complicações da neuropatia a longo prazo — que é, precisamente, o que interessaria saber.

O contraste com a secção anterior é o ponto todo desta página. De um lado, fármacos com receita, avaliados em guidelines, com efeitos secundários conhecidos e acompanhamento médico. Do outro, um suplemento de venda livre cuja revisão sistemática mais recente não confirma benefício claro. A diferença entre os dois não é o preço na prateleira — é a evidência por trás.

Seria mais simples escrever que o ácido alfa-lipoico «pode ajudar» e não contrariar ninguém. Omitir este resultado numa página sobre neuropatia seria deixar alguém gastar dinheiro e, pior, tempo. A mesma régua vale para todos os produtos de que falamos neste site, incluindo aqueles a que ligamos noutras páginas: quando a evidência é fraca, dizemos que é fraca. Um site que só encontra boas notícias sobre o que vende não é um site de informação.

Feridas e úlceras: a complicação que junta tudo

Uma úlcera no pé é o encontro das três vias: nervos que deixaram de avisar, circulação que deixou de alimentar e uma glicemia que dificulta a cicatrização. É também a complicação com critérios de urgência mais claros e mais fáceis de memorizar.

Dois centímetros de vermelhidão à volta de uma ferida, ou o envolvimento de tendão, músculo ou osso, já definem infeção moderada. Sinais sistémicos — febre, taquicardia, respiração acelerada — definem infeção grave, que é emergência.

Toda a parte prática, incluindo o autoexame diário, a rede de consultas em Portugal e o que a evidência diz sobre calçado, está em pé diabético.

Uma ferida no pé com estes sinais é urgência hospitalar

  • febre acima de 38 °C ou temperatura abaixo de 36 °C
  • pulsação acima de 90 batimentos por minuto ou respiração acima de 20 ciclos por minuto
  • necrose, gangrena, infeção com progressão rápida ou suspeita de envolvimento do osso

Estes são os critérios internacionais de infeção grave do pé. Não há aqui margem para esperar pela consulta marcada.

E as manchas na pele?

Alterações de cor da pele estão na lista de sinais a procurar diariamente nos pés: vermelhidão, zonas escuras ou pretas, a par de inchaço, calor localizado, bolhas, feridas indolores e qualquer secreção ou cheiro anómalo. Nos pés, uma mancha nova não é assunto estético — é um achado a comunicar.

Sobre manifestações cutâneas da diabetes noutras zonas do corpo, não temos, nesta data, fonte portuguesa verificada que nos permita publicar descrições e números. Preferimos dizê-lo a preencher a secção com generalidades. Uma mancha ou lesão de pele nova e persistente é motivo para mostrar a um médico, com ou sem diabetes.

O que liga todas estas complicações?

O tempo passado com a glicemia acima do alvo. A retinopatia resulta de glicemia elevada mantida a danificar os vasos da retina; a nefropatia e a neuropatia seguem a mesma lógica noutros tecidos. Nenhuma delas aparece de um dia para o outro e nenhuma delas se resolve com uma cápsula.

O que muda o rumo é conhecido e pouco espetacular: saber os seus valores de glicemia e a sua hemoglobina glicada, fazer os rastreios no calendário que as normas definem e tratar o que aparecer na fase em que ainda é pequeno.

Fontes utilizadas 7

DocumentoFonte
Norma DGS nº 016/2018, rastreio da retinopatia diabéticanormas.dgs.min-saude.pt
Norma DGS nº 003/2011, «Diagnóstico Sistemático da Nefropatia Diabética»normas.dgs.min-saude.pt
Baicus C. et al., revisão Cochrane 2024 sobre ácido alfa-lipoico na neuropatia diabética (DOI 10.1002/14651858.CD012967.pub2)pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
Sintomas iniciais de neuropatia diabética periférica (estudo PREVANEDIA, SPD/GRENEDI)normas.dgs.min-saude.pt
NICE, guideline CG173 «Neuropathic pain in adults: pharmacological management in non-specialist settings», recomendações 1.1.8 a 1.1.12 (tratamento inicial: amitriptilina, duloxetina, gabapentina ou pregabalina; venlafaxina entre os fármacos a não iniciar fora de contexto especializado)nice.org.uk
IWGDF/IDSA Guidelines on Diabetes-related Foot Infections, Clinical Infectious Diseases, 2023 (DOI 10.1093/cid/ciad527)academic.oup.com
Norma DGS nº 005/2011, «Diagnóstico Sistemático do Pé Diabético»normas.dgs.min-saude.pt

Autor: Redação Açúcar no Sangue · como trabalhamos

Nota de saúde. Esta página descreve rastreios e evidência publicada. Não interpreta os seus exames nem decide tratamentos — isso pertence a quem o acompanha clinicamente.

Marcas mencionadas. Os nomes de medicamentos e suplementos citados pertencem aos respetivos titulares. A redação não tem vínculo com nenhum fabricante nem é paga por qualquer um deles para escrever o que escreve.

Perguntas frequentes

A retinopatia diabética dá sintomas?

Nas fases iniciais, normalmente não. É por isso que o rastreio por retinografia é feito por calendário e não à espera de queixas de visão. Quando a visão começa a alterar-se, a lesão dos vasos da retina já está instalada há algum tempo.

Quem tem diabetes tipo 1 faz o rastreio ocular desde o diagnóstico?

Não. A norma da DGS prevê a primeira avaliação 5 anos após o diagnóstico na diabetes tipo 1, e anual a partir daí. Na diabetes tipo 2, o rastreio começa logo no diagnóstico e repete-se todos os anos.

O que é a microalbuminúria e porque é preciso repetir a análise?

É a presença de pequenas quantidades de albumina na urina, um sinal precoce de lesão renal. Repete-se porque muitas situações banais a elevam sem haver doença renal — exercício intenso, febre, infeção urinária, descompensação da glicemia ou tensão arterial não controlada nas 24 horas anteriores. A norma manda repetir a tira-teste 3 a 4 meses depois.

Que exames avaliam os rins de quem tem diabetes?

Doseamento de albuminúria ou proteinúria, creatinémia e avaliação anual da taxa de filtração glomerular. É o conjunto definido pela norma nº 003/2011 da Direção-Geral da Saúde.

A neuropatia diabética tem tratamento?

Para a dor neuropática, a guideline NICE indica como tratamento inicial uma escolha entre amitriptilina, duloxetina, gabapentina e pregabalina, com troca para outro da lista se o primeiro não resultar ou não for tolerado. A venlafaxina não está entre as opções a iniciar fora de contexto especializado. São todos medicamentos com receita médica, ajustados caso a caso.

O ácido alfa-lipoico vale a pena para os nervos?

A revisão Cochrane de 2024, com 3 ensaios controlados por placebo e 816 participantes tratados durante pelo menos 6 meses, não demonstrou diferença clara face ao placebo nos sintomas de neuropatia periférica diabética, com certeza da evidência classificada de moderada a baixa.

Estas complicações aparecem sempre?

Não são inevitáveis. Todas partem do mesmo mecanismo — glicemia elevada mantida ao longo do tempo a danificar vasos e nervos — e todas têm rastreios definidos para as apanhar antes de darem sintomas.

Uma ferida que não sara é sinal de quê?

De que os três problemas se juntaram: nervos que não avisam, circulação insuficiente, cicatrização dificultada.

Uma ferida no pé que não evolui bem tem critérios claros de gravidade e não se gere em casa — ver pé diabético.

Autoria: Redação Açúcar no Sangue 25 de agosto de 2026

Números desta página

1× por ano rastreio da retinopatia na diabetes tipo 2, desde o diagnóstico
5 anos depois do diagnóstico começa o rastreio ocular na diabetes tipo 1
2 retinografias por olho no exame de rastreio
3–4 meses espera antes de repetir uma microalbuminúria positiva
816 participantes da revisão que não encontrou efeito do ácido alfa-lipoico