Resposta curta: as complicações crónicas da diabetes atingem sobretudo os vasos pequenos de três órgãos — a retina, o rim e os nervos periféricos — e todas têm uma coisa em comum: começam sem sintomas. É por isso que Portugal tem normas que obrigam a rastreá-las por calendário, e não à espera de queixas. Quem faz os rastreios apanha-as na fase em que ainda há muito a fazer.
- febre acima de 38 °C ou temperatura abaixo de 36 °C
- pulsação acima de 90 batimentos por minuto ou respiração acima de 20 ciclos por minuto
- necrose, gangrena, infeção com progressão rápida ou suspeita de envolvimento do osso
Estes são os critérios internacionais de infeção grave do pé. Não há aqui margem para esperar pela consulta marcada.
A retinopatia diabética não costuma dar sintomas percetíveis nas fases iniciais. É exatamente por isso que o rastreio é feito mesmo sem queixas de visão: quando a visão começa a falhar, a lesão dos vasos da retina já vem de trás. «Vejo bem, não preciso de ir» é o raciocínio que mais atrasa o diagnóstico.
Quais são as complicações crónicas da diabetes?
As complicações crónicas resultam do dano que a glicemia elevada mantida ao longo dos anos provoca nos vasos sanguíneos. Nos vasos pequenos, três órgãos concentram o problema:
| Órgão | Complicação | Como se deteta cedo |
|---|---|---|
| Retina | Retinopatia diabética | retinografia anual, mesmo sem sintomas |
| Rim | Nefropatia diabética | albuminúria, creatinémia e TFG anuais |
| Nervos periféricos | Neuropatia diabética | exame dos pés e sintomas de dormência ou queimadura |
O pé diabético é, em rigor, o resultado combinado de duas destas vias — a lesão dos nervos e a má circulação — e tem página própria, porque tem norma própria e critérios de urgência próprios.
O que a diabetes faz aos olhos?
A retinopatia diabética é o dano progressivo dos pequenos vasos da retina, causado por glicemia elevada mantida ao longo do tempo.
Os vasos tornam-se permeáveis, entopem ou proliferam de forma anómala. A retina — a camada que converte a luz em sinal nervoso — deixa de funcionar bem nas zonas afetadas.
Nas fases iniciais não há sintomas percetíveis. Esta é a característica clínica mais importante da doença e a razão de todo o programa de rastreio.
A retinopatia diabética é uma das principais causas de cegueira evitável em adultos em idade ativa nos países desenvolvidos.
A palavra a sublinhar é evitável. O rastreio existe porque a deteção precoce muda o desfecho.
De quanto em quanto tempo se faz o rastreio da retinopatia?
A norma nº 016/2018 da Direção-Geral da Saúde define calendários diferentes conforme o tipo de diabetes:
| Situação | Quando começa | Periodicidade |
|---|---|---|
| Diabetes tipo 2 | desde o diagnóstico | anual |
| Diabetes tipo 1 | 5 anos após o diagnóstico | anual a partir daí |
| Gravidez ou intenção de engravidar | antes de engravidar ou, no máximo, no 1.º trimestre | definida pelo oftalmologista |
O exame de rastreio consiste em duas retinografias por olho: uma centrada na mácula, outra na papila. São obtidas com retinógrafo de câmara não midriática e executadas por técnico treinado.
Câmara não midriática quer dizer, na prática, que o exame dispensa em regra a dilatação da pupila com gotas.
O caso da gravidez merece nota à parte: as mulheres com diabetes que estão grávidas ou a planear engravidar são encaminhadas para oftalmologia com prioridade, e a periodicidade das reavaliações seguintes não é fixa — é decidida pelo oftalmologista conforme o quadro clínico.
Como se deteta a lesão dos rins?
Pela mesma lógica de calendário. A norma nº 003/2011 da DGS estabelece rastreio anual da nefropatia diabética: para a diabetes tipo 2 desde o diagnóstico, para a diabetes tipo 1 a partir dos 5 anos após o diagnóstico.
O rastreio tem três componentes:
- doseamento de albuminúria ou proteinúria
- doseamento de creatinémia
- avaliação anual da taxa de filtração glomerular (TFG)
Há ainda uma regra de confirmação que evita conclusões precipitadas: se a tira-teste de microalbuminúria for positiva, deve repetir-se com outra tira-teste 3 a 4 meses depois, antes de se confirmar seja o que for.
O que pode falsear uma análise de microalbuminúria
A própria norma da DGS enumera as situações em que o doseamento não deve ser feito, porque a albuminúria pode estar elevada sem que exista nefropatia diabética. Nas 24 horas anteriores à recolha:
- exercício físico moderado ou intenso
- infeção urinária
- febre
- insuficiência cardíaca congestiva
- descompensação da glicemia
- hipertensão arterial não controlada
Isto explica uma situação que assusta muita gente: um valor alterado numa análise feita no dia a seguir a uma ida ao ginásio, ou durante uma infeção urinária, pode não significar doença renal nenhuma. Um resultado é um ponto, não um diagnóstico.
Quais são os primeiros sintomas da neuropatia diabética?
Dormência, formigueiro, picadas ou sensação de queimadura nos pés e nas pernas, quase sempre piores à noite.
Os pés são afetados primeiro. E a evolução é insidiosa: pode decorrer durante anos sem sintomas percetíveis.
O que torna a neuropatia perigosa não é o incómodo. É o silêncio que vem a seguir.
A perda de sensibilidade à dor e à temperatura significa que uma ferida deixa de doer e, por isso, deixa de ser notada. É a mesma perda que está na origem do pé diabético — e a razão pela qual a inspeção diária dos pés substitui a dor como sistema de alarme.
Qual é o tratamento da neuropatia diabética dolorosa?
A guideline britânica NICE sobre dor neuropática (CG173) manda oferecer, como tratamento inicial, uma escolha entre quatro fármacos: amitriptilina, duloxetina, gabapentina ou pregabalina.
Se o primeiro não resultar ou não for tolerado, passa-se a um dos três restantes. E assim sucessivamente.
A mesma guideline é explícita sobre a venlafaxina, que aparece em muitos artigos como opção corrente: não deve ser iniciada fora de contexto especializado, salvo indicação de um especialista.
Todos são medicamentos sujeitos a receita médica. A dose, a escolha entre eles e o ajuste ao longo do tempo são decisões clínicas, dependentes de outras medicações e de outras doenças que a pessoa tenha. Não damos doses nesta página, e explicamos mais abaixo porquê.
O ácido alfa-lipoico funciona para a neuropatia diabética?
A revisão sistemática mais recente não encontrou diferença clara em relação ao placebo. É um resultado desconfortável de escrever, porque o ácido alfa-lipoico é vendido em farmácias e parafarmácias portuguesas como suplemento «para os nervos» — mas é o que os dados mostram.
A revisão Cochrane de 2024 (Baicus C. e colegas) reuniu 3 ensaios clínicos controlados por placebo, com 816 participantes adultos, idade média de 57,8 anos e tratamento de pelo menos 6 meses. Aos 6 meses, não ficou demonstrada diferença clara entre o ácido alfa-lipoico e o placebo na redução dos sintomas de neuropatia periférica diabética. A certeza da evidência foi classificada como moderada a baixa pelo método GRADE.
Há ainda duas ausências que dizem muito: nenhum dos estudos incluídos mediu o efeito na qualidade de vida, e nenhum mediu o efeito nas complicações da neuropatia a longo prazo — que é, precisamente, o que interessaria saber.
O contraste com a secção anterior é o ponto todo desta página. De um lado, fármacos com receita, avaliados em guidelines, com efeitos secundários conhecidos e acompanhamento médico. Do outro, um suplemento de venda livre cuja revisão sistemática mais recente não confirma benefício claro. A diferença entre os dois não é o preço na prateleira — é a evidência por trás.
Feridas e úlceras: a complicação que junta tudo
Uma úlcera no pé é o encontro das três vias: nervos que deixaram de avisar, circulação que deixou de alimentar e uma glicemia que dificulta a cicatrização. É também a complicação com critérios de urgência mais claros e mais fáceis de memorizar.
Dois centímetros de vermelhidão à volta de uma ferida, ou o envolvimento de tendão, músculo ou osso, já definem infeção moderada. Sinais sistémicos — febre, taquicardia, respiração acelerada — definem infeção grave, que é emergência.
Toda a parte prática, incluindo o autoexame diário, a rede de consultas em Portugal e o que a evidência diz sobre calçado, está em pé diabético.
E as manchas na pele?
Alterações de cor da pele estão na lista de sinais a procurar diariamente nos pés: vermelhidão, zonas escuras ou pretas, a par de inchaço, calor localizado, bolhas, feridas indolores e qualquer secreção ou cheiro anómalo. Nos pés, uma mancha nova não é assunto estético — é um achado a comunicar.
Sobre manifestações cutâneas da diabetes noutras zonas do corpo, não temos, nesta data, fonte portuguesa verificada que nos permita publicar descrições e números. Preferimos dizê-lo a preencher a secção com generalidades. Uma mancha ou lesão de pele nova e persistente é motivo para mostrar a um médico, com ou sem diabetes.
O que liga todas estas complicações?
O tempo passado com a glicemia acima do alvo. A retinopatia resulta de glicemia elevada mantida a danificar os vasos da retina; a nefropatia e a neuropatia seguem a mesma lógica noutros tecidos. Nenhuma delas aparece de um dia para o outro e nenhuma delas se resolve com uma cápsula.
O que muda o rumo é conhecido e pouco espetacular: saber os seus valores de glicemia e a sua hemoglobina glicada, fazer os rastreios no calendário que as normas definem e tratar o que aparecer na fase em que ainda é pequeno.
Os calendários são públicos, as suas análises não se leem aqui
Estão descritos os calendários de rastreio que as normas portuguesas definem para a retinopatia e para a nefropatia, o que cada exame inclui, o que pode falsear uma análise, os primeiros sintomas da neuropatia e o que a revisão sistemática mais recente mostra sobre o ácido alfa-lipoico.
O que uma página não faz é ler as suas análises e escolher o seu tratamento. Um valor de albuminúria, uma retinografia ou a decisão sobre um fármaco para a dor neuropática interpretam-se com o processo clínico à frente — e isso é do médico que o segue.
Porque publicamos que um suplemento não resultou
Seria mais simples escrever que o ácido alfa-lipoico «pode ajudar» e não contrariar ninguém. Escrevemos o contrário porque a revisão Cochrane de 2024, com 816 participantes, não demonstrou diferença clara face ao placebo, e omitir isso numa página sobre neuropatia seria deixar alguém gastar dinheiro e, pior, tempo.
Aplicamos a mesma régua a todos os produtos de que falamos neste site, incluindo aqueles a que ligamos noutras páginas. Quando a evidência é fraca, dizemos que é fraca. Um site que só encontra boas notícias sobre o que vende não é um site de informação.
Fontes utilizadas
- Norma DGS nº 016/2018, rastreio da retinopatia diabética: https://normas.dgs.min-saude.pt/2018/09/13/rastreio-da-retinopatia-diabetica/
- Norma DGS nº 003/2011, «Diagnóstico Sistemático da Nefropatia Diabética»: https://normas.dgs.min-saude.pt/2011/01/31/diagnostico-sistematico-da-nefropatia-diabetica/
- Baicus C. et al., revisão Cochrane 2024 sobre ácido alfa-lipoico na neuropatia diabética (DOI 10.1002/14651858.CD012967.pub2): https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38205823/
- Sintomas iniciais de neuropatia diabética periférica (estudo PREVANEDIA, SPD/GRENEDI): https://normas.dgs.min-saude.pt/2018/09/13/rastreio-da-retinopatia-diabetica/
- NICE, guideline CG173 «Neuropathic pain in adults: pharmacological management in non-specialist settings», recomendações 1.1.8 a 1.1.12 (tratamento inicial: amitriptilina, duloxetina, gabapentina ou pregabalina; venlafaxina entre os fármacos a não iniciar fora de contexto especializado): https://www.nice.org.uk/guidance/cg173/chapter/recommendations
- IWGDF/IDSA Guidelines on Diabetes-related Foot Infections, Clinical Infectious Diseases, 2023 (DOI 10.1093/cid/ciad527): https://academic.oup.com/cid/advance-article/doi/10.1093/cid/ciad527/7287196
- Norma DGS nº 005/2011, «Diagnóstico Sistemático do Pé Diabético»: https://normas.dgs.min-saude.pt/2011/01/21/diagnostico-sistematico-do-pe-diabetico/
Autor: Redação Açúcar no Sangue · como trabalhamos Publicado: 25 de agosto de 2026 · Última atualização: 25 de agosto de 2026
Nota de saúde. Esta página descreve rastreios e evidência publicada. Não interpreta os seus exames nem decide tratamentos — isso pertence a quem o acompanha clinicamente.
Marcas mencionadas. Os nomes de medicamentos e suplementos citados pertencem aos respetivos titulares. A redação não tem vínculo com nenhum fabricante nem é paga por qualquer um deles para escrever o que escreve.