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Diabetes gestacional: diagnóstico e valores

Números desta página

92 mg/dl em jejum: já é diagnóstico, logo na 1.ª consulta de gravidez
75 gramas de glicose dissolvidas em 300 ml de água, se o jejum for normal
24–28 é a janela de semanas para fazer a prova de tolerância
180 mg/dl é o corte à 1 hora da prova
153 mg/dl é o corte às 2 horas — basta UM valor alterado

Resposta curta: diabetes gestacional é hiperglicemia detetada pela primeira vez durante a gravidez, habitualmente causada pela resistência à insulina que as hormonas da placenta provocam. Em Portugal o rastreio faz-se em duas fases: uma glicemia de jejum na primeira consulta de gravidez — valor igual ou superior a 92 mg/dl e inferior a 126 mg/dl já é diagnóstico — e, se esse valor for inferior a 92 mg/dl, uma prova de tolerância à glicose com 75 g entre as 24 e as 28 semanas. Nessa prova basta um valor alterado: 92 mg/dl em jejum, 180 mg/dl à primeira hora ou 153 mg/dl às duas horas.

Quase sempre não há sintomas nenhuns. O diagnóstico sai do rastreio, e é por isso que o rastreio se faz a todas as grávidas.


Quando falar com a equipa que a segue, sem esperar pela consulta marcada

🔴 Sede intensa, urinar muito, visão turva ou cansaço acentuado durante a gravidez não são de deixar para a próxima consulta. Podem ser sinais de glicemia elevada e devem ser comunicados à equipa que a acompanha.

🔴 Se já tem diagnóstico e medicação que baixa a glicemia, sintomas de hipoglicemia — tremores, suores frios, palpitações, confusão — exigem ação imediata segundo o protocolo que lhe foi ensinado. Em caso de perda de consciência, 112.

🔴 Não inicie dietas restritivas nem suplementos por conta própria para «baixar o açúcar» na gravidez. Qualquer alteração alimentar significativa nesta fase passa pela equipa obstétrica, porque o que está em causa não é só a sua glicemia.

O que é a diabetes gestacional

Diabetes gestacional é a hiperglicemia detetada pela primeira vez durante a gravidez. O mecanismo típico é a resistência à insulina induzida pelas hormonas da placenta: o corpo precisa de produzir mais insulina do que o habitual e, em algumas mulheres, o pâncreas não consegue acompanhar esse aumento de exigência.

Duas consequências práticas desta definição. A primeira é que não se trata de uma falha de comportamento: é uma resposta fisiológica que ultrapassa a capacidade de compensação, e acontece a mulheres com alimentação cuidada e peso normal. A segunda é que a diabetes gestacional tem critérios de diagnóstico próprios, diferentes dos que se aplicam fora da gravidez — os 126 mg/dl que definem diabetes na população geral não são o número que interessa aqui.

Como categoria, fica ao lado dos outros tipos de diabetes sem se confundir com eles: não é uma diabetes tipo 1 nem uma diabetes tipo 2 que apareceu mais cedo. A comparação entre tipos está em diabetes tipo 1 e tipo 2.

Como se diagnostica em Portugal: duas fases

O rastreio segue a norma nº 002/2011 da Direção-Geral da Saúde e tem duas etapas bem definidas.

Primeira fase. Glicemia de jejum na primeira consulta de gravidez. Se o valor for igual ou superior a 92 mg/dl e inferior a 126 mg/dl em plasma venoso, o diagnóstico de diabetes gestacional fica feito nessa primeira análise, sem esperar por mais nada.

Segunda fase. A PTGO com 75 g de glicose, feita apenas se a glicemia de jejum inicial tiver ficado abaixo de 92 mg/dl, entre as 24 e as 28 semanas de gestação.

Momento da prova Valor que confirma diagnóstico
Jejum (0 horas) ≥ 92 mg/dl
1 hora após a glicose ≥ 180 mg/dl
2 horas após a glicose ≥ 153 mg/dl

Basta um valor alterado. Não é preciso que os três estejam acima do corte — qualquer um deles, isoladamente, confirma o diagnóstico. É uma diferença importante face ao diagnóstico fora da gravidez, onde a norma manda repetir a análise numa segunda colheita.

Como é feita a prova das 24-28 semanas

Saber o procedimento tira metade do desconforto, porque a maior parte das queixas vem de surpresas evitáveis.

A prova faz-se de manhã, com jejum de pelo menos 8 horas e não superior a 14. A glicose — 75 g — é dissolvida em 300 ml de água e bebida no local.

Seguem-se colheitas à primeira e à segunda hora. Ou seja: fica no laboratório durante todo esse tempo.

O sabor muito doce provoca náuseas em algumas mulheres, e há quem tenha dificuldade em manter o líquido.

Se acontecer, diga ao profissional que está a fazer a colheita. A prova pode ter de ser repetida noutro dia, e esconder o episódio só estraga o resultado.

Levar alguma coisa para comer imediatamente depois da última colheita costuma ser boa ideia — mas só depois, nunca durante a prova.

A diabetes gestacional dá sintomas?

Na maioria dos casos, não. É precisamente por não dar sintomas que o rastreio é universal em Portugal, e não reservado a quem tem queixas.

Quando existem, os sinais são os da glicemia elevada em geral: sede excessiva, boca seca, urinar com mais frequência, cansaço, visão turva, dor de cabeça.

O problema é que quase todos se confundem com queixas normais da gravidez. Urinar mais vezes e sentir mais cansaço acontece a praticamente todas as grávidas.

Daí a conclusão simples: aqui decide a análise, não a autoavaliação de sintomas.

Uma gravidez sem queixa nenhuma pode ter diabetes gestacional. Uma gravidez cheia de queixas pode não ter.

Quem está em maior risco

Os fatores associados a maior probabilidade de diabetes gestacional são conhecidos e usados na prática clínica para reforçar a vigilância: excesso de peso antes da gravidez, idade materna mais avançada, história familiar de diabetes, diabetes gestacional numa gravidez anterior e síndrome do ovário poliquístico.

Duas ressalvas honestas sobre esta lista.

A primeira: apresentamo-la como lista qualitativa, sem percentagens de risco. Não temos, na nossa recolha de fontes, valores de risco relativo específicos para a população portuguesa, e inventá-los daria uma falsa precisão.

A segunda: nenhum destes fatores é necessário para ter diabetes gestacional. Uma parte significativa dos diagnósticos acontece em mulheres sem qualquer fator de risco identificado — mais um motivo para o rastreio ser feito a todas.

Olhos: uma consulta que muitas grávidas não sabem que lhes cabe

Mulheres com diabetes — prévia ou gestacional — ou que planeiam engravidar são encaminhadas para consulta de oftalmologia com prioridade. A primeira observação deve acontecer antes de engravidar ou, no máximo, durante o primeiro trimestre.

A periodicidade das reavaliações seguintes não é fixa como no rastreio anual habitual: é o oftalmologista que a define conforme o quadro clínico.

A razão é o comportamento da retinopatia diabética, que nas fases iniciais não dá sintomas percetíveis — a pessoa vê bem e já tem alterações. O quadro completo dos rastreios de complicações está em complicações da diabetes.

O que comer: o que se pode dizer sem substituir a equipa

A alimentação é a primeira linha de tratamento da diabetes gestacional, mas o plano concreto é individualizado e definido pela equipa que segue a gravidez — habitualmente com nutricionista. O que segue são princípios gerais publicados, não um plano.

Padrão alimentar. As recomendações citadas pela APDP a partir da EASD para a diabetes tipo 2 privilegiam cereais integrais, hortícolas, fruta, leguminosas e frutos secos, reduzindo carne vermelha e processada, bebidas açucaradas e cereais refinados.

Açúcar livre. A recomendação da Organização Mundial de Saúde citada pelo manual nacional de contagem de hidratos de carbono é que o açúcar total não ultrapasse 10% do valor energético diário, com o ideal abaixo de 5% — cerca de 25 g por dia num adulto.

Hidratos de carbono. Contam-se, não se eliminam. O manual nacional lista o que conta como fornecedor de hidratos de carbono: cereais e derivados, tubérculos, leguminosas, leite e iogurtes, fruta e sumos, e o grupo do açúcar, mel, compotas, bolos e gelados. Os hortícolas podem ficar fora da contagem em quantidades habituais.

Pequeno-almoço. A APDP, citando a Federação Internacional da Diabetes, situa esta refeição em 20% a 25% da energia do dia, com hidratos de carbono com fibra, gordura insaturada e proteína.

Os exemplos com gramagens, e a lista do que evitar, estão em como montar o prato. Um aviso sobre eles: foram escritos para pessoas com diabetes em geral. Uma grávida tem necessidades energéticas diferentes, e por isso o plano tem sempre de ser confirmado por quem a acompanha.

O que acontece depois do parto

A diabetes gestacional resolve-se tipicamente depois do parto. A vigilância, no entanto, não termina aí — e esta é a parte que mais vezes se perde no meio do cansaço dos primeiros meses.

Risco futuro. Ter tido diabetes gestacional aumenta o risco de desenvolver diabetes tipo 2 mais tarde na vida. Por isso o seguimento inclui rastreio de diabetes tipo 2 no pós-parto, e continua a fazer sentido repetir análises nos anos seguintes.

Peso do bebé. A diabetes gestacional associa-se a maior risco de o bebé nascer com peso elevado para a idade gestacional, o que se designa por macrossomia.

Para quem sai da gravidez com valores de glicemia acima do normal mas abaixo do corte de diabetes, o assunto passa a chamar-se pré-diabetes — a fase em que a intervenção tem mais efeito documentado.

Os critérios são públicos, o seu plano é da equipa que a segue

Ficam registados os critérios de diagnóstico em vigor em Portugal, o procedimento da prova de tolerância à glicose e o que se sabe sobre a evolução depois do parto.

O seu plano de tratamento não está — nem podia estar. Como se controla a glicemia durante a gravidez, com que frequência medir, quando é preciso passar a medicação e que medicação — nada disso se decide fora da equipa que a acompanha, e a gravidez é o contexto em que a autogestão é mais desaconselhada.

Porque não escrevemos aqui sobre medicação nem suplementos na gravidez

Sem tratamento farmacológico. Não temos fonte verificada em português sobre quando se passa a insulina ou sobre o uso de metformina em grávidas em Portugal. É matéria demasiado sensível para se escrever por aproximação.

Sem percentagens de risco. A lista de fatores de risco é qualitativa, porque não temos valores de risco relativo para a população portuguesa.

Sem suplementos. Não indicamos suplementos para a glicemia na gravidez. Nenhuma das botânicas vendidas para esse fim tem alegação de saúde aprovada pela EFSA, e o contexto da gravidez é o último em que faz sentido experimentar.

Fontes utilizadas

  1. DGS — Norma nº 002/2011, «Diagnóstico e Classificação da Diabetes Mellitus» (critérios da diabetes gestacional, PTGO 75 g) — https://normas.dgs.min-saude.pt/2011/01/14/diagnostico-e-classificacao-da-diabetes-mellitus/
  2. DGS — Norma nº 016/2018, rastreio da retinopatia diabética (encaminhamento prioritário na gravidez) — https://normas.dgs.min-saude.pt/2018/09/13/rastreio-da-retinopatia-diabetica/
  3. APDP — Importância do pequeno-almoço — https://apdp.pt/importancia-do-pequeno-almoco/
  4. APDP / EASD — padrões alimentares recomendados — https://apdp.pt/comer-melhor-viver-melhor/
  5. Associação Portuguesa dos Nutricionistas — Manual de Contagem de Hidratos de Carbono na Diabetes Mellitus — https://www.spedp.pt/files/upload/paginas/manual-contagem-hc.pdf
  6. EFSA — Health claims (artigo 13) e botânicas em regime «on hold» — https://www.efsa.europa.eu/en/topics/health-claims-art-13

Autor: Redação Açúcar no Sangue · como trabalhamos Publicado: 25 de agosto de 2026 · Última atualização: 25 de agosto de 2026

Nota clínica. Esta página reúne critérios e procedimentos publicados. Na gravidez, mais do que em qualquer outra situação, as decisões sobre vigilância, alimentação e tratamento pertencem à equipa que a acompanha.

Marcas de terceiros. Nomes comerciais eventualmente citados pertencem aos respetivos titulares; não representamos fabricantes nem vendedores.

Perguntas frequentes

Que valores confirmam diabetes gestacional?

Na primeira consulta de gravidez: glicemia de jejum igual ou superior a 92 mg/dl e inferior a 126 mg/dl em plasma venoso.

Na prova de tolerância à glicose com 75 g, feita entre as 24 e as 28 semanas, basta um valor alterado — 92 mg/dl em jejum, 180 mg/dl à primeira hora ou 153 mg/dl às duas horas.

Quando se faz o exame da diabetes gestacional?

A glicemia de jejum é pedida na primeira consulta de gravidez. Se esse valor for inferior a 92 mg/dl, faz-se a prova de tolerância à glicose com 75 g entre as 24 e as 28 semanas de gestação.

Como é feita a prova de tolerância à glicose na gravidez?

De manhã, com jejum de pelo menos 8 horas e não mais de 14. Bebe-se uma solução com 75 g de glicose dissolvidos em 300 ml de água e fazem-se colheitas de sangue à primeira e à segunda hora, o que obriga a ficar no laboratório durante esse tempo.

A diabetes gestacional dá sintomas?

Habitualmente não. Quando existem, são os sinais gerais de glicemia elevada — sede, urinar muito, cansaço, visão turva —, que se confundem facilmente com queixas normais da gravidez. O diagnóstico faz-se por análise, não por sintomas.

A diabetes gestacional desaparece depois do parto?

Tipicamente sim, mas deixa consequências a vigiar: aumenta o risco de a mulher desenvolver diabetes tipo 2 mais tarde, motivo pelo qual o seguimento inclui rastreio no pós-parto.

Tive diabetes gestacional. Vou ter diabetes tipo 2?

Não necessariamente — o que existe é um risco aumentado, não uma certeza. É por isso que o rastreio pós-parto e a repetição de análises nos anos seguintes fazem diferença: permitem apanhar a fase de pré-diabetes, em que a intervenção no estilo de vida tem o maior efeito documentado.

Preciso de ir ao oftalmologista por causa da diabetes gestacional?

As mulheres com diabetes, prévia ou gestacional, ou que planeiam engravidar são encaminhadas para oftalmologia com prioridade, com primeira observação antes da gravidez ou no máximo no primeiro trimestre. As reavaliações seguintes são definidas pelo oftalmologista.

Autor: Redação Açúcar no Sangue 25 de agosto de 2026