Resposta curta: as insulinas dividem-se, na prática, em dois papéis. A basal, de ação lenta, começa a atuar cerca de uma hora depois da administração e cobre as necessidades ao longo de todo o dia, normalmente numa única administração diária. A bolus, de ação rápida, começa a atuar cerca de 30 minutos depois — ou 15 minutos nos análogos ultrarrápidos — e cobre a subida de glicose provocada por cada refeição. Fechada, guarda-se no frigorífico entre 2 e 8 ºC; já em uso, pode ficar à temperatura ambiente.
Esta é uma página panorâmica. Explica a lógica dos tipos, a conservação, a comparticipação em Portugal e os medos mais comuns. O esquema concreto — as unidades, os horários — é definido pelo médico que acompanha cada caso.
A insulina é o tratamento que mais vezes baixa a glicemia abaixo do necessário. Reconhecer uma hipoglicemia e tratá-la depressa é a competência mais importante de quem a usa.
Glicemia igual ou inferior a 70 mg/dl, com a pessoa consciente e capaz de engolir: 15 g de açúcar de absorção rápida — duas colheres de sopa de açúcar em água, ou um sumo/refrigerante não-dietético —, esperar 15 minutos e voltar a medir. Se continuar em 70 mg/dl ou abaixo, repetir, até chegar perto de 100 mg/dl. Chocolate e bolachas não servem como primeira escolha: a gordura atrasa a absorção.
Sinais a conhecer: tremores, palpitações, suores frios, fome súbita, visão turva, tonturas, irritabilidade, formigueiro nos lábios; em fase grave, confusão e perda de consciência.
Pessoa inconsciente ou que não reage: não dar nada por via oral, pelo risco de engasgamento, e ligar 112 de imediato. Para um problema agudo sem risco de vida, SNS 24, 808 24 24 24.
O que a insulina faz no corpo
A insulina é uma hormona que o organismo produz e que abre a porta das células à glicose do sangue.
O tratamento com insulina injetável substitui, ou completa, aquilo que o corpo já não consegue produzir em quantidade suficiente.
Daí que a insulinoterapia não seja castigo nem último recurso moral. É reposição de uma hormona em falta.
A parte difícil também não é a agulha. É acertar na quantidade certa no momento certo, e isso faz-se com acompanhamento e medições.
Insulina basal: a que cobre o dia inteiro
Insulina basal é a de ação lenta ou prolongada. Começa a atuar cerca de uma hora após a administração e mantém uma intensidade mais constante ao longo do dia, muitas vezes sem pico marcado. Na maioria dos casos é administrada apenas uma vez por dia.
É habitualmente o primeiro tipo de insulina a ser introduzido na diabetes tipo 2, quando os antidiabéticos orais deixam de ser suficientes para manter a glicemia nos objetivos.
A sua função é cobrir as necessidades de fundo do organismo — as que existem mesmo entre refeições e durante a noite.
Insulina bolus: a que acompanha as refeições
Insulina bolus é a de ação rápida ou ultrarrápida. Começa a atuar cerca de 30 minutos depois da administração; nos análogos ultrarrápidos — lispro, aspart e glulisina — cerca de 15 minutos.
O objetivo é outro: cobrir a subida de glicose provocada pela refeição.
Daí que se administre antes das principais refeições, e não a horas fixas independentes da comida.
| Papel | Início de ação | Quando se administra |
|---|---|---|
| Basal (lenta/prolongada) | ~1 hora | Normalmente 1x/dia |
| Bolus (rápida) | ~30 minutos | Antes das principais refeições |
| Bolus (análogo ultrarrápido) | ~15 minutos | Antes das principais refeições |
O esquema basal-bolus
O esquema basal-bolus combina uma insulina basal — análogo lento ou insulina humana de ação intermédia, uma a duas vezes por dia — com insulina de ação curta ou análogo rápido antes das três refeições principais.
É o regime que mais se aproxima do funcionamento fisiológico normal do pâncreas. Em troca, exige mais picadas e mais monitorização da glicemia.
Na norma nacional sobre insulinoterapia na diabetes tipo 2, este esquema aparece como o passo seguinte quando as insulinas bifásicas, também chamadas pré-misturadas, já não são suficientes para atingir os objetivos.
"Começar insulina" significa que piorei?
É o medo mais comum. A resposta clínica é não.
Iniciar insulina na diabetes tipo 2 reflete a evolução natural da doença, ou a necessidade de melhor controlo. Não é falha pessoal de quem a toma.
Também não cria dependência no sentido de vício. É reposição de uma hormona que o corpo produz naturalmente, e a esta o organismo não desenvolve adição.
Quem precisa de insulina precisa dela pela mesma razão pela qual precisava antes dos comprimidos: manter a glicemia dentro de valores seguros.
Adiar o início por medo tem um custo real, porque são os anos com glicemia elevada que alimentam as complicações a longo prazo.
Como guardar insulina
| Estado | Onde e a que temperatura |
|---|---|
| Fechada (frasco ou caneta por abrir) | Frigorífico, entre 2 ºC e 8 ºC |
| Em uso (caneta ou frasco já iniciado) | Temperatura ambiente, até cerca de 30 ºC |
Regras que valem para as duas colunas: nunca congelar nem encostar ao congelador, porque a proteína degrada-se se congelar; proteger da luz solar direta e do calor excessivo.
Uma caneta em uso não precisa de voltar ao frigorífico entre administrações.
Tem, isso sim, prazo limitado depois de aberta: dias a poucas semanas, conforme o produto. O número está na bula da insulina específica e varia entre formulações — confirme-o na embalagem.
Em viagem, a lógica é a mesma: frio, sim; congelação, não.
Um saco térmico com placa de gel isolada do contacto direto resolve a maioria das deslocações de um dia.
Onde e como se administra
A insulina de uso corrente administra-se por via subcutânea, com caneta ou seringa, e existe ainda a opção de perfusão subcutânea contínua — a bomba de insulina — para os casos em que está indicada.
A técnica de administração, os locais do corpo a utilizar e a rotação entre eles ensinam-se presencialmente, com a caneta na mão, pela equipa que inicia o tratamento.
É formação prática, não conteúdo de leitura. Não é área em que uma página deva improvisar instruções.
O que uma página pode fazer é lembrar o essencial: o esquema, as unidades e os horários são definidos pelo médico, e qualquer alteração passa por ele.
"Uma unidade de insulina baixa quanto?"
Não publicamos um número, e a explicação é o conteúdo mais útil que esta secção pode dar.
A resposta é individual. O efeito de uma unidade depende da sensibilidade de cada pessoa à insulina, do tipo de insulina, do peso, do horário, da refeição e da atividade física daquele dia. Circulam regras genéricas na internet que dão a impressão de precisão universal — aplicá-las a alguém para quem não foram calculadas é a forma mais rápida de provocar uma hipoglicemia.
Quem faz esta conta é o médico ou o enfermeiro que acompanha o caso, com base no registo de glicemias da pessoa.
Precisa de saber o seu fator pessoal? É exatamente a pergunta a levar à próxima consulta. E é uma boa pergunta.
Quanto custa: o que o Estado comparticipa
Em Portugal, os dispositivos para diabetes têm um regime de comparticipação próprio, distinto do dos medicamentos.
| Dispositivo | Comparticipação do Estado |
|---|---|
| Tiras-teste de glicemia | Até 85% do PVP máximo |
| Agulhas, seringas e lancetas | Até 100% do PVP máximo |
| Bombas de insulina (perfusão subcutânea contínua) | 100%, por regime excecional |
| Sistemas de monitorização contínua da glicose | 100%, por regime excecional |
A comparticipação a 100% de bombas e sensores vem de um regime excecional mais recente, criado pela Portaria n.º 18/2025/1, para os beneficiários abrangidos.
O peso financeiro é real: pagos do próprio bolso, estes equipamentos são caros. E muita gente que os poderia usar ainda não sabe que estão comparticipados.
Como se sabe se a dose está a resultar
Por dois caminhos que se completam. O primeiro é o registo de glicemias no dia a dia, medido com glucómetro ou com sensor contínuo, que mostra o comportamento hora a hora e deteta hipoglicemias.
O segundo é a o indicador de longo prazo, que resume dois a três meses num só número. O objetivo terapêutico geral para adultos com diabetes tipo 2 é inferior a 7%.
Mas é um alvo individualizado, conforme a idade, as complicações e o risco de hipoglicemia. Em idosos frágeis, alvos mais permissivos podem ser a escolha mais segura.
Nenhum dos dois substitui o outro: uma HbA1c bonita pode esconder oscilações grandes, e um bom dia de glicemias não descreve o trimestre.
Porque não há aqui nenhum número de unidades
Fica explicada a lógica dos tipos de insulina, as regras de conservação, o enquadramento da comparticipação em Portugal e uma resposta honesta aos medos mais frequentes de quem vai começar.
Não vai encontrar esquemas de dose, cálculo de unidades por hidratos de carbono, nem instruções de técnica de injeção.
Isso ensina-se ao vivo e ajusta-se ao caso. É a diferença entre um texto informativo e um manual que ninguém deve seguir sozinho.
Fontes utilizadas
- SPEDM, Insulinoterapia — definição e tempos de ação da insulina basal e da insulina bolus, incluindo análogos ultrarrápidos: https://www.spedm.pt/pt/glandulas-e-doencas-endocrinas/insulinoterapia
- Norma DGS nº 025/2011, Insulinoterapia na Diabetes Mellitus tipo 2, atualizada em 2013 (esquema basal-bolus, passagem das insulinas bifásicas, objetivo de HbA1c e individualização, enquadramento do início de insulina): https://normas.dgs.min-saude.pt/2011/09/29/insulinoterapia-na-diabetes-mellitus-tipo-2/
- Norma DGS nº 025/2011 (versão PDF consultada para objetivos terapêuticos): https://ordemdosmedicos.pt/files/pdfs/G0tT-Norma_025_2011_de_29_09_2011_atualizada_30_07_2013_Insulinoterapia_na_Diabetes_Mellitus_tipo_2.pdf
- EMA — Resumo das Características do Medicamento em português de uma insulina basal comercializada em Portugal, com as regras de conservação (fechada: frigorífico a 2 ºC-8 ºC, não congelar nem colocar próximo do congelador ou de acumuladores de frio; em uso: temperatura inferior a 30 ºC, máximo de 4 semanas, protegida da luz e do calor, sem voltar ao frigorífico): https://www.ema.europa.eu/pt/documents/product-information/lantus-epar-product-information_pt.pdf
- SNS — regime de comparticipação de dispositivos médicos para diabetes: tiras-teste até 85%, agulhas/seringas/lancetas até 100%, bombas de insulina e monitorização contínua da glicose a 100% por regime excecional (Portaria n.º 18/2025/1): https://www.sns.gov.pt/reforma-faq/politica-do-medicamento-%E2%80%A2-regime-de-comparticipacao-do-estado-%E2%80%A2-dispositivos-medicos-%E2%80%A2-automonitorizacao-de-pessoas-com-diabetes/
- Limiar de hipoglicemia (≤70 mg/dl), sintomas e regra dos 15/15: https://www.inem.pt/2017/05/29/hipoglicemia/
- INEM — hipoglicemia com perda de consciência: não administrar nada por via oral, ligar 112: https://www.inem.pt/2017/05/29/hipoglicemia/
Autor: Redação Açúcar no Sangue · como trabalhamos Publicado: 25 de agosto de 2026 · Última atualização: 25 de agosto de 2026
Nota clínica. Esta página é uma introdução geral à insulinoterapia. Não define esquemas, não calcula unidades e não substitui a formação prática dada pela equipa de saúde nem a bula da insulina prescrita.
Comparticipação. Regras verificadas a 25 de agosto de 2026 junto do SNS; confirme sempre o enquadramento em vigor para o seu caso.
Independência. Não vendemos insulina, canetas, bombas nem sensores, e não temos acordos com os respetivos fabricantes.